Amapá

Precisamos falar sobre a Mafalda. Por Diego Morpheu

 

Por trás das aparentes ingênuas observações de uma criança, há na verdade um convite à leitura, à análise da sociedade, do contexto social em que estamos inseridos com temas que vão desde uma relação doméstica patriarcal à geopolítica, passando por processo de alienação, alfabetização e tantos outros pontos nevrálgicos.

Acessos: 84
Avaliações
(0)
Precisamos falar sobre a Mafalda. Por Diego Morpheu

Eu conheci as tirinhas da Mafalda há alguns anos, quando era estudante de Letras e participei de um encontro do curso na Universidade Federal do Paraná, assistindo a uma apresentação de um trabalho acadêmico sobre a crítica social por trás daqueles carismáticos quadrinhos. Foi amor à primeira vista.

Depois daquele encontro, fiquei tão fascinado pelo mundo dos gêneros iconográficos que fui pesquisar mais sobre a origem e o contexto histórico daquela famosa personagem e então fui entendendo perfeitamente o motivo pelo qual ela era tão referendada em provas de vestibulares e concursos em várias matérias. Eu Já usei seus quadrinhos em diversas aulas e muitos alunos já me disseram que lembram de mim quando veem uma tirinha dela.  

Estamos na semana prova do Enem de 2021 e vi recente nos noticiários que a Mafalda foi “não recomendada” pelo governo federal por gerar “polêmicas desnecessárias”. Alguns alunos e ex-alunos compartilharam comigo as reportagens e perguntam qual minha opinião sobre o fato, por isso escrevo este texto.

Servidores do INEP, órgão do Ministério da Educação, que organiza a prova, alegam que existe censura ideológica na seleção das questões do exame. O ministro da Educação e o Presidente da República negam as acusações, embora tenham insinuado interferência na prova, que estaria ficando a “cara do governo”.

A Mafalda tem 6 anos, mesma idade da minha filha, mas diferente da Helena, a personagem tem uma visão muito aguçada do mundo e vive questionando tudo a sua volta. Não se enganem com aquela carinha de anjo rs. Por trás das aparentes ingênuas observações de uma criança, há na verdade um convite à leitura, à análise da sociedade, do contexto social em que estamos inseridos com temas que vão desde uma relação doméstica patriarcal à geopolítica, passando por processo de alienação, alfabetização e tantos outros pontos nevrálgicos.

A Mafalda foi escrita e desenhada pelo cartunista argentino Quino, que faleceu ano passado com 88 anos. As histórias apareceram de 1964 a 1973 passando em boa parte pelos períodos de ditadura militar de muitos países da América Latina, inclusive na Argentina e no Brasil. Regimes marcados pela relativização de direitos fundamentais e forte controle de divulgação de propriedade intelectual.

O incomum nesse caso é que mesmo no auge da ditadura militar brasileira, a Mafalda nunca havia sido censurada o que é no mínimo preocupante, mesmo em tempos em que temos que conviver com terraplanistas e militantes de campanhas como “vacina mata” e “voto de papel”.

A verdade é que a Mafalda sempre foi e sempre será uma ameaça. Uma ameaça à criticidade e a tudo que ela provoca e, em última análise, deixando cada vez mais instável a nossa já em vertigem democracia.

Professor Diego Morpheu

Leia também

Opinião e Palavras
Image