Cinema

A Arte do Cinema em Alfred Hitchcock

 "A civilização tornou-se tão protetora que já não é possível proporcionarmos a nós mesmo, instintivamente, o calafrio."

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A Arte do Cinema em Alfred Hitchcock

 Quando Hitchcock dizia que “certos filmes são fatias de vida, os meus são fatia de bolo”, ele lembrava que a vida se encontra em cada esquina, mas que os filmes eram algo extraordinário. Hitchcock não se sentia à vontade no banal, ele queria filmes onde cada minuto fosse imperdível, onde o espectador não despregasse os olhos da tela, e que ficasse tão envolvido com aquela história como se ela fosse parte de sua própria… vida! Mas muito mais emocionante que sua própria vida. “Drama é a vida com as partes maçantes deixadas de fora”, dizia.


Desenhista de origem, a característica desse ofício de criar um mundo a partir de uma folha em branco foi levada adiante em cada um de seus filmes. O papel passou a ser “aquele retângulo branco no teatro” que deveria ser preenchido. Seu universo é criado então dentro daquele retângulo, com suas regras e limites de espaço e tempo, e não apenas como uma transposição da vida para a tela. E, por mais controverso que isso possa parecer, cada um que assistia a seus filmes subitamente se tornava, por um par de horas, parte daquela realidade, tal era o envolvimento e a carga emocional despendida com aquela trama.


Um mestre de sua arte, um dos maiores cineastas de todos os tempos, Alfred Hitchcock foi um grande autor do cinema, sem que isso o tenha afastado de seu público. Pelo contrário, o público sempre fez parte de seus filmes e os filmes eram feitos para o público: ter a plateia ao seu lado e participando da história, ser compreendido e acompanhado por ela, era fator indispensável para poder surpreendê-la. O público aprendeu sua gramática, assim como o próprio cinema se inventou com ele.


Hitchcock entendia o cinema como uma arte puramente visual, onde a história deve ser apreendida através das imagens. O cinema mudo era então a forma mais pura de cinema. Sua decepção com o cinema falado se deve ao retrocesso do desenvolvimento da linguagem cinematográfica ao se apoiar novamente no teatro e na literatura. Como um artista curioso e inventivo, ele abraçou essas e todas as outras mudanças tecnológicas que a indústria lhe apresentou, transformando seu uso em favor de suas narrativas. Nada poderia sobressaltar mais que o próprio filme, nenhuma novidade tecnológica, nem um ator ou uma locação, nem a música ou a fotografia, nem mesmo a verossimilhança da vida; nada importa mais do que a emoção.


Os tais 8.954 minutos de suspense desta mostra não são só de cenas de assassinatos e perseguições, não são só de cenas do chuveiro; são também de comédias, musicais, dramas psicológicos, cenas de amor e beijos longos de tirar o fôlego. A mostra é uma retrospectiva completa de todos os filmes existentes dirigidos por ele ao longo de 54 anos de carreira – longas, curtas e episódios de programas de TV. Complementando a programação, exibiremos o filme-show-de-variedades Elstree Calling e o remake de Psicose, de Gus Van Sant; além de um filme com narração ao vivo, outro acompanhado por piano e um terceiro por DJ.


Outras atividades ainda fazem parte do evento com uma proposta de aprofundamento e atualização nos estudos em torno da obra do cineasta – um curso, debates e uma aula magna, assim como esta publicação vem também a contribuir com informações sobre a retrospectiva e suas atividades, e a documentar estudos mais atuais através de textos inéditos e outros mais antigos, apresentando diferentes visões em diferentes contextos sobre a obra de Hitchcock.


Os filmes de Hitchcock produziram imagens que hoje fazem parte do nosso imaginário comum e são chaves do entendimento da própria estrutura do cinema, que um público mais jovem as reconhece como “clássicas”, mas nem sempre compreende sua origem. Essas imagens são referências de personagens, tipos, pares, de olhares e expressões, de casas, apartamentos, ruas e pontos turísticos, de armas e objetos banais, de descampados, desertos e multidões, são referências de tensão, alívio, paixão, medo e prazer.


Durante uma coletiva de imprensa em Hollywood em 1947, Hitchcock disse: “Estou disposto a proporcionar ao público choques morais benéficos. A civilização tornou-se tão protetora que já não é possível proporcionarmos a nós mesmo, instintivamente, o calafrio. Por isso é que convém provocar esse choque artificialmente, para desentorpecer as pessoas, para que elas recuperem o seu equilíbrio moral. Acho que o cinema é a melhor maneira de alcançar esse resultado.”


São enfim referências de morte e de vida, e da nossa humanidade.


                                                                                       Por Arndt Roskens, Cristiano Terto e Mariana Pinheiro

Link para leitura de umacoletânea sobre a obra cinematográfica sobre Alfred Hitchcock file:///C:/Users/samsung/Desktop/Livros%20pdf/Hitchcock-entrevistas-livro.pdf

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