Editorial

Clube da luta. Notas de aprendizagem

Concordo mais ainda com o escritor e roteirista George Martin, quando disse que “um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que nunca lê vive apenas uma”.

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Clube da luta. Notas de aprendizagem

 Certa vez, e coloque mais de uma década nessa conta, um amigo me convidou para assistir a um filme que, segundo ele, era dos bons e tinha muita luta. De imediato acreditei em sua entusiasmada sinopse, ora, quem não daria a devida credibilidade as palavras de um amigo quando se trata de um filme, não é mesmo? (eu sei, existem amigos sem noção).

 

Clube da luta (1999) era o filme, aquele mesmo, escrito por Chuck Palahniuk, adaptado para o cinema e dirigido por David Fincher. Quando fiz referência ao tempo que se passou (mais de uma década) até o momento em que escrevo estas reflexões, é por que quero e enfatizar justamente esse lapso temporal da ocasião de assistir ao Clube da luta até hoje – noite chuvosa de um domingo de março de 2021. E que fique claro ao leitor, para evitar falsas expectativas, não farei nos próximos parágrafos uma crítica de cinema, nem poderia, pois entre minhas tantas limitações, essa é uma delas.

 

Logo após ver o filme, minhas impressões preliminares foram as melhores possíveis, e correspondia ao que meu amigo descreveu para me convencer. Havia luta sim, embora não fosse um gênero de minha preferência, até que gostei realmente. Pois bem, acontece que depois desse episódio da minha vida, esse amigo e eu tomamos caminhos diferentes, pouco tivemos contato nesses mais de dez anos passados. E não posso deixar de registrar que rebobinávamos a fita para a devolução, pois não queríamos pagar a taxa de dois reais.

 

Nesse espaço temporal, entre muitas escolhas (in)certas a que um jovem faz na sua imaturidade, decidi estudar, e como costumo dizer hoje nas aulas e reuniões etílicas da vida: “quando resolvi virar gente”, e ser um estudante sério, pelo menos tentando. E ainda que muitas pessoas não saibam ou protestem, a vida de estudos é também uma vida de trabalho, de tal modo a de um médico ou ajudante de pedreiro, e acredite, a lida de ajudante de pedreiro é árdua e disso posso até falar com conhecimento de causa. Mas o ponto onde a quero chegar é por outra direção.

 

Há cerca de três ou quatro anos, não recordo com exatidão, tive a oportunidade de mais uma vez assistir ao Clube da luta, e confirmei algumas suspeitas que nesses escritos externo com o nobre leitor. E os que já assistiram ao filme ou leram o livro hão de concordar comigo em pelo menos uma afirmativa; a de que há muito mais a refletir sobre o filme de David Fincher do que as vias de fato ali encenadas. A crise existencial do homem moderno (contemporâneo) é decerto uma delas.

 

É interessante rememorar uma situação pela qual passamos com a consciência de que de lá para cá existe, de certa forma, um abismo de diferença contido na mesma pessoa. A ingenuidade, a imaturidade (e digo isso me referindo ao aspecto intelectivo de um indivíduo) daquela época não permitiram que meu amigo e eu percebêssemos o que havia para além da representação das cenas de violência física, tão bem construídas na linguagem da sétima arte. Nosso encantamento se debruçou tão somente ao que se passava no plano visual, e o que de mais profundo, reflexivo e interessante contidos no filme somente me foi revelado mais de década depois.

 

Foi como se uma venda sobre meus olhos impedisse o contato com os sentidos mais importantes a que o filme se propôs, e que realmente não era a luta entre pessoas excêntricas. Quem está acompanhando com atenção, já deve pressupor mais ou menos onde quero chegar. E garanto que minha tentativa, no avançar destes escritos, é não cair na armadilha de simplificar afirmando que é preciso uma “bagagem” intelectual para entender a profundidade e/ou complexidade de um bom filme ou um clássico da literatura universal como um Crime e Castigo, de Dostoiévski. Embora essa prerrogativa disponha de certa coerência, penso que a questão vai um pouco mais além.

 

Concordo com a ideia de que nada substitui a experiência de vida. Concordo mais ainda com o escritor e roteirista George Martin, quando disse que “um leitor vive mil vidas entes de morrer. O homem que nunca lê vive apenas uma”. Não que eu já seja um leitor contumaz, ou algo semelhante, o que me propus, na verdade, lá atrás, e ainda trabalho cotidianamente para isto, é desenvolver minha capacidade intelectiva, educar minha imaginação no sentido trabalhado por Northrop Frye, consolidado em A imaginação educada (2017), refletindo acerca da linguagem universal da literatura e suas várias possibilidades a que o ser humano pode alcançar quando se dedica a leitura das obras literárias.

 

E reitero, esse processo é tão difícil quanto o trabalho de um atleta quando se propõe a alcançar o mais alto nível de competitividade. Talvez a noção de que estudar com um pouco seriedade e disciplina seja dentro ou fora do mundo acadêmico, um meio pelo qual se desenvolve a capacidade de enxergar algo que somente com os olhos seria possível, ou quem sabe perceber o que em outros tempos era distante, agora caminha a passos despretensiosos ao seu encontro.

 

Através da dedicação aos estudos, ao conhecimento, (e isso vale para qualquer área do saber humano), acredite, entre outras riquezas, você ganha mais confiança frente aos desafios da vida, e até conhece a si próprio mais do que o horóscopo do seu signo. Não vai dá para ser um milionário, a não ser que se dedique a carreira mais curta para tal, a política. Vendendo a alma ali, negociando a dignidade aqui, corre o risco de até ser presidente do Brasil, senador pelo Amapá, coroné no Maranhão e viver o crepúsculo da vida escrevendo livros desinteressantes que ninguém lê na sua própria ilha.

 

Rego e guardo com zelo, e ainda que estejamos presos à realidade cruel da vida moderna e impiedosa aos pretenciosos de coisas grandes – e não é o hábito da leitura, esse “hábito” deixemos para as demandas diárias de higiene pessoal -, é, pois, a necessidade amorosa de aprender por meio da leitura, o aprender a ler a cada nova leitura. E sobre isso, gosto da semelhança que tenho com o poeta da canção brasileira, Belchior: a de que não há nada melhor do que uma boa insônia na companhia de um bom livro.

 

No final das contas, parece que estou dia a pós dia como o Winston de 1984 (G. Orwell), sempre se posicionando estrategicamente no ponto cego de uma “teletela” para poder escrever em seu diário proibido. Só que no meu caso, procuro o ponto cego para me esquivar do bombardeamento incessante da grande mídia e seus agentes com ‘opiniões formadas sobre tudo’, das redes, que mais parecem anti(sociais) e visitas indesejadas de parentes. Se há motivo convincente para isso, não sei, mas se o faço é porque quero resguardar a resiliência que ainda me resta e a sanidade mental necessária em meio ao caos nosso de cada dia.

 

 

Keully Barbosa – Editor do Opinião & Palavras,

Professor e  Mestrando em Letras pela Universidade Federal do Amapá

E-mail: [email protected]

(96) 9 9903-2910 (WhatsApp)

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