Editorial

Opinião, eu quero uma pra viver!

"Nada supera para o homem a satisfação de sua vaidade e nenhuma ferida dói mais do que aquela que golpeia esta vaidade."

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Opinião, eu quero uma pra viver!

Foi num desses intervalos de uma aula para outra nos tempos da graduação que um amigo soltou esta: “Deus me livre ter opinião formada sobre tudo!”. E claro, dada a perspicácia característica da personalidade desse amigo, a situação que antecedeu e motivou sua frase, e que ainda reverbera em minhas lembranças tem um fundamento lógico. Esse fundamento surgiu mais ou menos assim:

 

Um jovem, aparentemente calouro, um livro na mão (se bem me recordo, era Marx) e um pequeno público. Foi o que bastou para chamar nossa atenção, pois era tamanha a verve com o que o rapaz defendia sua posição, intercalando-a com citações do autor que, mesmo quem passasse a distância havia de concordar diante da imperatividade daquela oratória entusiasta e persuasiva. E na medida em que nos aproximávamos daquela inusitada situação, vimos que quando um colega ousava tentar colocar outro argumento, era imediata e veementemente interpelado, ou melhor, atropelado.

 

Feito esses parênteses, note que a frase de efeito que emprestei daquele amigo é na verdade uma paráfrase que ele fez inconscientemente, talvez, de um trecho de uma música bastante conhecida do rock nacional. Eis a passagem que nos interessa:

 

Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.

(Metamorfose ambulante, Raul Seixas)

 

Raul Seixas 1984

Raul Seixas (1945-1989)

Pois bem, se não todos, pelo menos alguns hão de concordar com a prerrogativa de que os meios de comunicação de massa (tv e rádio, incluo também as tvs por assinatura) estão com superlotação de autoridades se digladiando para provar que a sua opinião é a que vale, enquanto a do outro (do veículo concorrente) é inválida, digna de desprezo e descrédito.

 

E isso está cada vez mais evidente dada a polarização entre esquerda e direita no Brasil, entre os que se dizem conservadores e os progressistas. Vale dizer que isso é, em certa medida, bom para a consolidação da democracia de qualquer nação. O que não faz bem para a saúde intelectual de uma sociedade é o que vemos e lemos diariamente nesses meios de comunicação de massa. Ora, a responsabilidade social dos meios de comunicação (prevista inclusive na Constituição Federal) deveria, por vezes, instigar o leitor/espectador a pesquisar, examinar, para que mais a diante tenha a oportunidade de formular seu próprio ponto de vista acerca do tema que lhe foi apresentado.

 

No entanto, o que há é uma avalanche de “opiniões formadas” sendo impostas ao público, que nem pode discordar da “autoridade” que fala pelo órgão de comunicação. Quando isso ocorre, logo é taxado de hater, negacionista, inimigo da pátria ou algo do tipo. O debate, o bom debate, onde é dada a oportunidade de ouvir/ler dois lados de uma mesma história, parece não ser mais interessante. Uma mesma “autoridade intelectual” fala de saúde pública brasileira até a questão da extinção dos pinguins no norte da África.

 

Nesse sentido, é bastante pertinente usar de uma passagem dos escritos de Thomas Sowell em Os intelectuais e a sociedade para que cada um avalie e examine situações, fatos, contextos, para que a partir disso chegue a uma conclusão crível, ou no mínimo coerente com a realidade. Nas primeiras páginas da obra, escreve o autor: “George Orwell chegou a dizer que algumas ideias são tão estúpidas que apenas um intelectual poderia acreditar nelas, já que o homem comum nunca se faz tão tolo”.

 

LIvro.Os intelectuais e a soc

Lançado pela primeira vez em 2009

 

Que fique registrado a importância de consumir o conteúdo jornalístico da grande mídia, aqui no Amapá, por exemplo, temos o privilégio de saber diariamente a tábua das marés em determinada emissora, e em outra, quantos assassinatos ocorreram durante o final de semana, e melhor, com a precisa e profunda análise do apresentador/pseudoformador de opinião. O leitor aqui tem a liberdade de escolher o termo que julgar mais adequado.

 

É perceptível, especialmente na esfera digital, que há uma ânsia, uma espécie de fetiche em dar a opinião, o que é perfeitamente compreensível se vivemos no gozo de nossa liberdade de opinião e de livre pensamento, garantida constitucionalmente. O problema é emitir um discurso sobre um tema relevante socialmente sem qualquer fundamento lógico, sem a mínima consistência argumentativa para que o público possa levar a sério. Esse cenário revela, entre outras mazelas de nosso país, a deficiência do ensino básico brasileiro, a falta de políticas de incentivo à leitura e uma profunda e triste preguiça mental de buscar informação por conta própria, em suma, de sentar a bunda na cadeira e desenvolver sua capacidade intelectiva.

 

Northrop Frye, um dos maiores críticos literários e reconhecido mundialmente, a quem muito aprecio e leio, escreveu um livro muito interessante e que trata, entre outras questões, do que mencionei no parágrafo anterior. O livro é A imaginação educada (2017), do qual o excerto que se segue foi escolhido justamente por se tratar do que seja talvez a mensagem/reflexão principal deste artigo. Afirma Frye:

 

"Liberdade nada tem a ver com falta de exercício: ela é produto de exercício. Não se é livre para ir e vir a menos que se tenha apendido a andar, e não se é livre para tocar piano a menos que se pratique. Ninguém é capaz de manifestar liberdade de expressão a menos que saiba usar a linguagem, e este conhecimento não é uma dádiva: precisa ser aprendido e trabalhado."

 

livro a imaginacao educada destaque

 Primeira publicação em 1994

Tomando especificamente as duas últimas linhas de N. Frye, acredito de tal maneira que o aprendizado, a apropriação de conhecimentos não é fruto de dádivas, mas sim a custo de muitas horas, muitos dias a anos de dedicação, que muitas vezes nos levam a exaustão, que tenho com um lema de minha vida profissional a seguinte mensagem: escrever não é dom, é trabalho.

 

Quem está imerso nesse processo a que me refiro sabe exatamente o peso e o preço pago pela escolha de mudar de vida por meio dos estudos – seja para aprender novas técnicas de vendas de sapato até a aspiração da conquista diploma do curso superior. Os interlocutores a quem me dirijo são em especial os donos de microfone, a classe de intelectuais ungidos e grande parte dos meios de comunicação de massa, pois esses são os que legitimam o que é bom e o que é ruim para o público consumir, são os guardiões da moral e dos bons costumes.

 

E nesse jogo desigual onde nós, seres humanos desprovidos da unção e da graça do conhecimento e opiniões formadas sobre tudo, só nos resta ter o discernimento e buscar a informação na fonte, se possível. Os livros e a internet são fontes eficientes nesse sentido. Mas uma grande indagação nos persegue: afinal, em quem devemos acreditar e depositar nossa confiança? Talvez essa seja a pergunta de um milhão de reais. E por isso mesmo a proposta destes escritos despretensiosos não é apontar o dedo e jogar na vala comum toda a mídia de massa, tampouco os especialistas que expõem suas opiniões diariamente sobre assuntos diversos. Há sim, muito conteúdo relevante e relativamente profundo e que valem a pena parar alguns minutos para consumi-los.

 

A vaidade, um dos males deste século, é a grande vilã com a qual os donos da verdade não conseguem se afastar. Esse grupo seleto de indivíduos iluminados que povoam os veículos de comunicação jamais podem ser contrariados, e quando o são, usam da sua influência e microfone para a todo custo diminuir e descredibilizar o outro. É um egocentrismo crônico e que precisa ser inflado a todo momento. Sobre essa vaidade nociva que habita o homem, o recorte a seguir é de uma das reflexões de Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do qual admiro cada vez mais a cada página de seus escritos que leio. Que o leitor aprecie e construa sua própria impressão a respeito:

 

"Nada supera para o homem a satisfação de sua vaidade e nenhuma ferida dói mais do que aquela que golpeia esta vaidade. Esta satisfação da vaidade surge principalmente da comparação de si mesmo com os outros, em todos os aspectos, mas principalmente em relação às capacidades intelectuais. Isso ocorre de modo eficaz e bastante intenso justamente na disputa."

 

arthur schopenhauer 1 artigo

Arthur Schopenhauer (1788-1860)

 

Por outro lado, é preciso que seja dito que no Brasil, há muito, existe um desrespeito com relação ao intelectual, aquele que dedicou uma vida inteira ou grande parte dela a pesquisa, aos estudos de determinada área do saber, com a devida seriedade e necessária humildade. Essa depreciação foi exposta por Millôr Fernandes de modo incisivo e é claro com o seu humor ácido e inteligente. Em entrevista ao Programa Roda Viva (TV Cultura) em 1989, ao se posicionar em relação ao tratamento dado à época ao intelectual brasileiro pela mídia televisiva aberta, Millôr diz o seguinte:

 

(vale destacar o que ele diz também em relação a tv, notadamente atemporal, pois penso que tudo o que Millôr argumenta é perfeitamente coerente com a realidade atual desse segmento da comunicação brasileira).

 

img.artigo.millôr

 Millôr Fernandes (1923-2012)

Agora sim, vejamos o que Millôr Fernandes tem a dizer: "Eu acho a televisão um meio de divulgação desagradável pra mim". Mais adiante, Millôr complementa: "Eu quero ser reconhecido como Millôr Fernandes, e não como uma entidade vaga que o cara viu na televisão e achou bonitinho. (...) Segundo, eu sou um profissional. Por que que todo mundo que trabalha na televisão ganha e eu não hei de ganhar? Por que que a tv quando convida um cantor de terceira ordem, sugere imediatamente um cachê, e quando convida um intelectual – porque o intelectual é um idiota no Brasil. Todo intelectual é idiota no Brasil."

 

Para fechar esses breves recortes da entrevista de Millôr, não poderia escolher outro senão este: "Agora quanto a televisão brasileira, ela ainda é muito ruim. Bom, sem falar o mercantilismo que invade a televisão. Quando querem dizer pra gente que a novela é uma coisa que engrandece, que acresce alguma coisa a qualquer coisa espiritual, olha, tá brincando comigo!"

 

Eu teria sim, se fosse necessário, o prazer de transcrever toda a longa entrevista de Millôr Fernandes aqui para o nobre leitor, dada minha enorme admiração por esse grande jornalista, cartunista, artista plástico, pensador, humorista, escritor e tradutor que foi. Quem sabe em outra oportunidade.

 

É importante também deixar claro que estas reflexões a que o leitor percorre neste momento não pretendeu e nem pretende ser o artigo dito “imparcial”, até porque essa pretensão que é demasiadamente propagada contem, em si mesma, uma posição. A pretensão, em linhas gerais, foi tão somente expor algumas impressões, dialogando com autoridades (sem aspas) já mencionadas inclusive, sobre os temas também explicitamente já expostos. Se o leitor foi levado de alguma maneira a refletir sobre as questões aqui tratadas, o autor que vos fala cai em estado de grande contentamento.

 

Para encerrar o assunto, compartilho um ensinamento que aprendi também nos tempos da graduação na universidade, que foi o ato de reconhecer nossas próprias limitações e não temer expô-las, ainda que sejamos considerados especialistas em determinada esfera do saber humano. Ter a coragem e a humildade em dizer ‘não sei’, e na primeira oportunidade ir em busca do conhecimento e então poder socializar com todos ao seu redor, ou quem tiver disposto a ouvir. Ensinamento esse, aliás, há alguns séculos, já foi dito por Blaise Pascal (1623 - 1662): “Ninguém é tão sábio que não tenha algo pra aprender, e nem tão tolo que não tenha algo pra ensinar”.

 

Keully Barbosa – Editor do Opinião & Palavras,

Professor e  Mestrando em Letras pela Universidade Federal do Amapá

E-mail: [email protected]

(96) 9 9903-2910 (WhatsApp)

Instagram: @keully.barbosa

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