Editorial

Sobre a finitude da vida e outras efemeridades, inspirado no ensaio “Sobre a nulidade da existência” de Arthur Schopenhauer

"E, assim, o curso da vida das pessoas é via de regra o de, iludido pela esperança, cair dançando nos braços da morte”.

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Sobre a finitude da vida e outras efemeridades, inspirado no ensaio “Sobre a nulidade da existência” de Arthur Schopenhauer

É verdade que as duas primeiras linhas introdutórias acerca do ensaio de Schopenhauer configuram, em parte, a personalidade, o estilo e uma das principais temáticas abordadas pelo filósofo alemão. No entanto, não se pode limitar o empreendimento intelectual de toda uma trajetória à mera fama de pessimista em relação ao ser humano e sua aventura nesta breve passagem pela vida, bastante popular inclusive, mesmo aos que nunca tiveram contato com os escritos deste grande escritor do século XIX.

Por medida de bom senso, limitarei as considerações deste texto apenas ao que li da vasta obra de Arthur Schopenhauer: A arte de escrever e principalmente Sobre o sofrimento do mundo, livro onde está contido o ensaio cujo título compõe o próprio título deste artigo. Ambas as obras fazem parte da coleção L&PM POCKET, edição 2019.

É em uma noite de setembro, ao som de Frédéric Chopin, Op. 9, Nº 2, que externo e registro estas memórias. E o leitor que se aventurar a escrever, poderá constatar que a música clássica de alguma forma vai contribuir nesse processo. Não sou capaz de explicar o modo como isso ocorre comigo, mas a experiência pode valer muito a pena.

Já ouvi mais de uma vez a seguinte frase: tudo o que você pensa ou escreve já foi pensado e escrito melhor e mais profundamente há muito por grandes escritores, filósofos e intelectuais que a humanidade já teve. E como não concordar com essa premissa?! Haja vista a grande produção contemporânea de livros e textos de diversos gêneros que não nos dizem muito além das obviedades do cotidiano. A indústria cultural, em especial, o mercantilismo do meio editorial contribui sobremaneira para uma imensa produção de livros (incluo os digitais) que enfeitam as livrarias em busca de leitores que também se contentam em leituras superficiais e que não os levam à reflexão dos assuntos e questões fundamentais da humanidade. Me refiro àquelas mesmas leituras a que se refere Schopenhauer em seu livro A arte de escrever:

É inacreditável a tolice e a perversidade do público que deixa de ler os espíritos mais nobre e mais raros de cada gênero, de todos os tempos e lugares, para ler as besteiras escritas por cabeças banais que aparecem diariamente, como moscas. E isso apenas porque foram publicadas hoje e a tinta ainda está fresca. Na verdade, esses produtos deveriam ser abandonados e desprezados já no dia do seu nascimento, como serão após poucos anos, e então para sempre, reduzindo-se a um mero assunto para que se ria dos tempos passados e de suas balelas [p. 134].

Na leitura de passagens como essa da prosa de Schopenhauer, me foi inevitável uma comparação com o poeta Gregório de Matos, o Boca do inferno, claro, guardadas as devidas proporções, até pelo gênero a que cada um se dedicou. Pois se a poesia de Gregório de Matos é permeada de sátiras e críticas ferrenhas à sociedade e instituições de sua época a tal ponto de ganhar o referido apelido. Então a prosa filosófica e poética de Schopenhauer é digna também de compartilhar da mesma alcunha. Nesse sentido, vale dizer que Schopenhauer foi um incisivo crítico de professores universitários e eruditos de sua época. Entre algumas dessas críticas, nem mesmo seus conterrâneos alemães escaparam da sua pena afiada. A passagem a seguir está contida no ensaio “Sobre a erudição e os eruditos” na obra A arte de escrever:

Em todo caso, o erudito alemão também é pobre demais para ser honesto e honrado. Por isso, as atividades de torcer, enroscar, acomodar-se e renegar suas convicções, ensinar e escrever coisas em que na verdade não acredita, rastejar, adular, tomar partidos e fazer camaradagens, levar em consideração ministros, gente importante, colegas, estudantes, livreiros, críticos, em resumo, qualquer coisa é melhor do que dizer a verdade e contribuir para o trabalho dos outros – são esses o seu procedimento e o seu método. Desse modo ele se torna, na maioria das vezes, um velhaco cheio de preocupações [p. 27].

Um tanto desconfortável, assim pode ser considerada a leitura das obras já mencionadas, e isso pode ser confirmado nas citações que selecionei para construir este artigo, especialmente as que virão a seguir. Mas o desconforto do qual menciono é sobre a forma e a linguagem como o autor trata de temas como a vaidade e a morte, por exemplo. É como um soco no estômago, e logo em seguida vem um afago, e depois mais um soco, e mais forte ainda. Essa descrição é pessoal obviamente, pois a faço a partir de minha experiência da leitura das duas obras de Arthur Schopenhauer.

Ouvi certo dia que homens iluminam outros homens. De alguma forma Schopenhauer iluminou a mim, disso não tenho dúvida, e ao final destas linhas, desejo - aqui no silêncio de uma noite de domingo -, que o leitor seja iluminado também, ou que ao menos se permita ser iluminado, seja por Schopenhauer, seja por outro escritor de sua preferência. Quem sabe este seja o momento de iniciar a leitura do livro que nunca leu, ver o documentário que nunca assistiu, começar o projeto engavetado, escrever o poema que sempre quis, mas nunca teve coragem. Ora, por que não?! Quando sou questionado do porquê gosto de escrever, a resposta é até bem curta: porque eu preciso, porque eu necessito!

Nossa existência não tem qualquer solo ou fundamento em que se apoiar, a não ser o do presente evanescente. Por isso, sua forma é o movimento contínuo, sem qualquer possibilidade do repouso pelo qual constantemente ansiamos [p. 60].

Lendo e relendo esse trecho, a conclusão que consigo alcançar é a de que o ser humano, ainda que viva conscientemente guiado por planos de médio ou longo prazo, ele não os tem em pleno domínio senão apenas na teoria, abstratamente, justamente pelo fato, segundo Schopenhauer, de que nós temos apenas o presente evanescente como fio condutor e concreto de nossas vidas. E quantas vezes não nos pegamos idealizando aquelas férias, aquela fuga da correria da cidade para um lugar calmo, à beira de um rio, para que finalmente possamos dar aquela pausa, fazer o tão ansiado repouso para repor as energias.

O intrigante é que para Schopenhauer esse repouso jamais será possível, pois esse movimento contínuo no qual estamos todos inseridos, nos perseguirá mesmo distante muitos quilômetros da cidade, do sinal da internet e do barulho do meio urbano. Acredito essa incredulidade do repouso ao qual o escritor alemão se refere, se dá por nosso estado de espírito não conseguir dissociar, ou melhor, separar-se desse movimento contínuo, que parece estar intrínseco ao homem urbano moderno. Essa interpretação, ainda que superficial, lembra muito aquela máxima (com diferentes variações) que diz o seguinte: eu saí da cidade, mas a cidade não saiu de mim.

Schopenhauer também fala de outras ânsias a que o ser humano tem em obter algo o tempo todo. E disso ele nos coloca diante de cenas de nossas vidas abordadas por outro prisma. Um prisma que nem todos vai agradar, porque é de tal forma verdade que chega a ser um desencanto ver a vida pelos olhos de Schopenhauer. Desse modo, veja o que ele escreve a respeito:

Por isso, obter algo que se ansiava é o mesmo que se dar conta de que esse algo era vão, e por isso vivemos o tempo inteiro na esperança de algo melhor, e também com frequência simultaneamente em uma nostalgia arrependida do passado [p. 62].

Quando queremos muito alcançar com todas as nossas forças um objetivo, e no momento mesmo em que chegamos lá, o desejo é que esse exato momento dure para sempre. Desejamos que o tempo pare para que esse sentimento de realização não cesse, é um êxtase inexplicável, mas que dura apenas alguns minutos, e então começa tudo de novo. Uma nova batalha começa, e a estrada será ainda mais longa e árdua porque vivemos o tempo inteiro na esperança de algo melhor.

Para Schopenhauer a vontade é “a senhora do mundo”. Se analisarmos objetivamente não há o que se questionar, temos vontade de uma imensidão de coisas o tempo todo, das necessidades fisiológicas até a aspiração do apartamento de frente para o mar. E quando uma vontade é saciada, outras tantas ainda estão lá, e assim se dá o sofrimento do mundo segundo Schopenhauer. “Sobre o sofrimento do mundo” traz à baila a miséria humana, em suas faces, por vezes hostis para com seu semelhante. Trata também do egoísmo do homem diante das situações cotidianas e da sua própria pequenez.

A respeito da efemeridade a que todos somos acometidos de uma forma ou de outra, Schopenhauer sintetiza esse fenômeno em uma frase: Nenhuma pessoa jamais se sentiu plenamente feliz no presente – a não que estivesse ébria [p. 65].

Abaixo segue uma interessante imagem que Schopenhauer constrói deste nosso mundo, e que não é nada comparável a realidade que vemos nas novelas das nove, tampouco nas propagandas de Bancos:

Se tentarmos abarcar o conjunto da humanidade em um único olhar, veremos por toda parte uma luta incessante pela vida e pela existência, uma contenda violenta, com empenho de todas as forças físicas e espirituais, contra perigo e males de toda espécie que nos ameaçam e a cada instante nos atingem [p. 63].

Não por acaso que ao levantar as seis horas da manhã de uma segunda-feira chuvosa dizemos em silêncio: vamos lá a mais um dia de batalha! E bem sabemos os perigos que nos cercam, as ameaças que nos afligem, os males que nos atingem, alguns perigos e males têm nome e endereço, uns são parentes, outros ocupam cargos públicos, especialmente no parlamento e em Brasília. E dessa espécie são incontáveis os que fazem hora extra neste mundo. Meus heróis não morreram de overdose, mas muitos dos meus inimigos estão no poder.

Em dado momento do ensaio que aqui tomo como referência Schopenhauer lança uma questão a que ele próprio responde. Mas que distância há entre nosso início e nosso fim! Mais reflexivo que a indagação é a resposta. Diz o filósofo que o caminho entre as duas pontas é percorrido com vistas ao bem-estar e ao desfrute da vida é sempre descendente. Inicia com a infância feliz e sonhadora, a juventude alegre, a trabalhosa idade viril, a frágil, muitas vezes lastimável senilidade, os martírios da doença derradeira e finalmente a luta com a morte [p. 66]. E conclui levantando uma hipótese sobre a própria descrição que faz sobre as fases da vida: não chega quase a parecer que a existência seria um deslize, cujas consequências se tornam gradualmente mais e mais evidentes?

 Ler Schopenhauer é nos recolhermos a nossa humilde insignificância. É incrível como ele enxerga a realidade humana sob uma perspectiva arrebatadora. Sentimo-nos pequenos diante da grandeza do universo, mas isso faz bem se considerarmos que ele também alarga nosso horizonte de percepção sobre nós mesmos, e instiga a desenvolvimento, aos que ainda não têm, o senso de finitude da vida. Nos diz também o que vez ou outra escutamos e não damos a devida atenção – de que os detalhes, os momentos fugazes da vida, um abraço apertado em alguém que está ao seu lado, por exemplo, pode ser efêmero, mas pode fazer toda a diferença naquele momento.

Penso que a leitura é um diálogo dos mais enriquecedores e fonte conhecimento e autoconhecimento que ainda resiste ao tempo. E ler Schopenhauer não só enriquece, mas nos faz refletir sobre a vida e sobre nós mesmos nessa breve passagem pela aventura da vida. Por essas e outras é que considero a leitura da obra de Schopenhauer uma conversa com alguém mais velho, um verdadeiro sábio, e que tem muito a nos dizer e ensinar sobre a vida e como lidar da melhor maneira possível com o sofrimento do mundo.

E se é verdade que tudo o que pensamos e escrevemos já foi pensado e escrito melhor e mais profundamente pelos grandes escritores, filósofos e artistas de toda ordem, não será por isso que deixemos de expor nossas impressões sobre o que lemos, experienciamos e de perseguir a originalidade, consciente de nossas limitações. Dito isso, reafirmo ao leitor um dos compromissos que tenho a partir deste canal de comunicação, de que não deixarei de incentivar a leitura a todos aqueles que de alguma forma forem alcançados através destas reflexões.

Saudações filosóficas...

Keully Barbosa – Editor do Opinião & Palavras,

Professor e  Mestrando em Letras pela Universidade Federal do Amapá

E-mail: [email protected]

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Instagram: @keully.barbosa

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