Política

Um causo da política amapaense

"quem gosta de política subterrânea é tatu, meu filho. As nossas obras precisam estar visíveis aos olhos do povo e da mídia, do contrário, como saberão que foram feitas por nós se as cores do nosso governo estarão escondidas."

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Um causo da política amapaense

 

Agora vai!

 

Já fechei vários acordos com nomes “fortes”, mas que não posso revelar aqui por motivos óbvios. Agora é fazer o que precisa ser feito; ir para as ruas todos os dias, sem exceção, pela manhã, tarde e noite. Precisamos convencer a todos de nosso compromisso com o povo amapaense. Mas qual é mesmo nosso compromisso?

 

- É fazer o melhor pela saúde, segurança e moradia.

 

Só isso?

 

- Ah sim, e educação também, senhor.

 

Isso aí. Nossa estratégia não tem segredo, é descer em cada baixada, em cada beco, em cada conjunto habitacional, e levar esperança a esse povo tão sofrido. Vamos fazê-los acreditar que nós somos a verdadeira mudança. Porque nós somos de fato a única esperança de novos tempos por aqui.

 

Eu nasci e cresci aqui. Sei com o conhecimento de causa do que meus conterrâneos precisam. E vamos usar isso a nosso favor. Nosso maior adversário tem a máquina pública, mas nós estamos com o povo e eles com a gente. Quero que anotem aí mais duas propostas que lembrei agora, e que são fundamentais enquanto bandeira de luta. O primeiro é que vamos reconstruir todas as pontes das áreas de ressaca, de modo que sejam feitas de concreto para dar mais dignidade a esse povo esquecido. O segunda é a tão esperada inauguração do Hospital Metropolitano de Macapá. A incompetência e a corrupção das gestões anteriores sempre foram o entrave da efetivação de boas propostas como essas. Anotaram aí?

 

- Sim, senhor!

 

- E saneamento básico, senhor, não podemos incluir também?

 

Meu nobre assessor, quem gosta de política subterrânea é tatu, meu filho. As nossas obras precisam estar visíveis aos olhos do povo e da mídia, do contrário, como saberão que foram feitas por nós se as cores do nosso governo estarão escondidas.

 

Vão nos atacar de todas as maneiras. Vão tentar manchar nossa imagem nesta reta final. E infelizmente a grande mídia é toda comprada, e irão certamente abrir as penas neste contexto de prostituição midiática e eleitoral. Então vamos usar isso a nosso favor, ora, se seremos atacados de modo tão forte e covarde é porque somos mais fortes.  O povo vai entender isso.

 

É tempo de pandemia ainda. Mas que se dane! Abracem as pessoas. Apertem suas mãos. Se não gostam, tudo bem, mas mostrem que gostamos delas. Digam bem de perto que estamos juntos nesta caminhada. Preciso que me entendam, companheiros, é preciso que pelo menos demonstremos todas essas virtudes que forjam os bons políticos. O distanciamento é apenas para a militância hostil dos adversários. Bastante atenção com eles, são traiçoeiros.

 

- Senhor, atente para a hora, o dia já vai clarear.

 

Tá, já entendi! Onde eu estava mesmo? Ah sim, lembrei.

 

Pois bem, temos poucos dias para reverter o resultado das últimas pesquisas e chegar ao topo. Já cuidou disso João? Se precisar de mais “incentivo”, a hora é agora.

 

- Não, senhor, já tenho mais que o necessário de “incentivo” para encerrar a campanha em primeiro lugar.

 

Bom, então é isso, finalmente, vamos dar um ponto final em mais de duas décadas de oligarquia e revezamento de determinadas famílias que comandam o Amapá. Seremos lembrados nos livros de História por essa façanha. Meu avô deve estar muito orgulhoso de mim. De nós, na verdade. “Ninguém constrói nada sozinho”, já dizia ele com fervor no discurso de posse quando chegou ao cargo máximo do Executivo.

 

- Senhor! Perdoe interrompê-lo, mas tocam a campainha. Posso atender?

 

Vai de uma vez e não me interrompa mais!

 

Como eu ia dizendo... Vamos fazer barulho. Vamos mostrar a que viemos. Não aceitaremos nada além da vitória. Façam a recontagem de todas as suas listas, com total discrição, obviamente. Estamos na iminência de reescrever a história do Amapá, e quero todos vocês ao meu lado, em cada Secretaria, e se possível, e é possível, em cada casa dos três poderes. Com “sorte”, um de vocês será contratado estratégica e vitaliciamente para o Tribunal de Contas do Estado, se é que me compreendem, meus caros.

 

- Senhor?

 

- Senhor?!

 

Porra João! O que é?

 

- É a Polícia Federal que bate a sua porta.

 

Alguém me diz a hora?

 

- Seis horas da manhã, em ponto.

 

Liguem para meus advogados e... (...) acho que vou atrasar um pouco...

 

Keully Barbosa – Editor do Opinião & Palavras,

Professor e  Mestrando em Letras pela Universidade Federal do Amapá

E-mail: [email protected]

(96) 99903-2910 (WhatsApp)

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